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O
Natal de 2004 tinha tudo para ser “aquele Natal”.
Porém
o clima não era o mesmo de outros Natais,havia algo estranho no ar;o espírito
de Natal não “pegou”; a árvore de Natal com aquelas alegorias e lâmpadas
de todas as cores piscando insistentemente, anunciando o Natal que se
aproximava, não tinha o mesmo brilho nem irradiava a mesma alegria de sempre.
Havia
um sentimento forte, que aquele Natal não seria igual aos todos os demais que
passamos juntos.
Os
preparativos eram iguais, mas o entusiasmo e a expectativa, que antes reinava
nessa época, não contaminava ninguém,não criava um clima propício.
Aquele
Natal decisivamente não seria igual aos outros Natais...aquele Natal,
certamente seria o último...”O ÚLTIMO NATAL DO PAULINHO ENTRE NÓS”.
Quis
o destino que a nossa festa de Natal fosse realizada ali, na casa da Georgina
de Albuquerque, como que a prenunciar a sua despedida definitiva.
Noite
de 24 de dezembro de 2004
Como
de costume, nossos familiares foram chegando....chegando....chegando....até a
chegada do Paulinho e a Marli.Por acaso, ou propositalmente, ele veio
desacompanhado de suas filhas, diferente dos anos anteriores, algo estranho
mas compreensível.
Paulinho
encontrava-se terrivelmente debilitado pelo câncer que o consumia,
impresionantemente magro e empalidecido, seu aspecto chegava a chocar,
principalmente para aqueles que, por acaso, não o viam há algum tempo.
Cumprimentou
a todos com aquele sorriso espontâneo e uma alegria contagiante, que sempre
fora sua marca registrada.Estávamos acostumados a vê-lo daquele jeito,pois
onde ele se encontrava não morava a tristeza.
Mas,
naquele dia, sua alegria não era natural, percebia-se que era forçada,
parecendo que queria demonstrar que tudo estava bem como sempre,ele não
queria que ninguém se condoesse e se comovesse.
Estávamos
acostumados a vê-lo coradão, gordo e com aquela alegria irradiante, ele era
o próprio Papai Noel personificado.Entretanto naquele dia ele já não era o
mesmo Paulinho.
Ele
pressentia que aquele, provavelmente seria o seu derradeiro Natal entre nós,
mas não queria que este sentimento contagiasse os demais,por isso forçava o
riso (há quem diga que fazer rir é muito mais difícil que fazer chorar).
Em
certo momento, sentou-se em um sofá e ali ficou por muito tempo.
Permaneci
demoradamente observando-o, encarando-o e lhe afagando, sem que ele percebesse
que aquele meu gesto era um ato de despedida, pois algo me dizia que eu não
iria vê-lo por muito mais tempo, e muito menos em novos Natais.
Lá
estava ele sentado no sofá, suas roupas já lhe sobravam no corpo, os olhos
querendo saltar das órbitas, o rosto impressionantemente esquelético, a boca
enorme, os dentes sobressaltados, mas sorrindo sempre.
Por
um instante, sua vida passou em minha mente como um filme, a doença por ocasião
de seu nascimento que quase o levou...quanto desespero, sua infância, o
pavor que ele tinha por escola pois decididamente estudar não era sua praia,
embora ele nunca tivesse sido reprovado, sua adolescência, os amigos do
Arqui, os amigos da praia, o gosto por dirigir carros, o amor pela noite, as
aventuras e viagens malucas pela Bolívia e Peru, um bar, algumas cervejas, um
pagode, e ele passava a noite, sem se preocupar com o que acontecia fora, as férias
em Peruíbe, (o apartamento 807 do Edifício Serra dos Itatins que o diga),
quanta história está ali guardada, que deixava o Múcio, síndico do prédio
maluquinho, quantas reclamações, mas ele era feliz daquele jeito,
divertia-se.
As
noites em claro, quantas vezes eu não ficava na sala sentado esperando ele
chegar, rezando para que nada de mal tivesse acontecido e lá pelas tantas,
ele chegava, alegre e brincalhão, não dava para ficar bravo.
Simplesmente
agradecia a Deus por ele ter voltado para casa.
Não
foi feliz no amor, apaixonou-se (será ?), casou, separou, teve um filho que não
chegou conhecer, casou novamente, teve duas filhas gêmeas, separou novamente
voltou a casar (com a Marli), que foi sua companheira até o fim,
e esteve
sempre ao seu lado. Apesar dos tropeços, viveu a vida intensamente, fez tudo
o que tinha direito e o que não tinha também, até que a doença o atingiu.
Era
um homem de enorme coração, sempre disposto a ajudar aqueles que
necessitavam, mas nem sempre era correspondido ou compreendido.
Sabia
como ninguém que as coisas mais importantes na vida são aquelas que vem e
ficam no coração.
Voltando
a nossa festa de Natal, as músicas que eram tocadas, não irradiavam a mesma
alegria, soavam tristemente, não tinham o mesmo ritmo, nem os mesmos sons. Até
mesmo as músicas do Zeca Pagodinho, seu ídolo soavam como fúnebres, mas
mesmo assim eu o surpreendi por diversas vezes cantarolando e sambando,
imitando pandeiro com as mãos, sem perceber que eu o estava observando.
O
Paulinho não se deixava abater, apesar de saber da gravidade de sua doença,
chegou naquele dia a contar algumas piadas e ria como se nada estivesse
acontecendo.
Ele
não queria que ninguém tivesse qualquer sentimento de piedade com a sua doença,
queria ver todo mundo alegre, afinal era noite de Natal.Chegou a ensaiar
alguns passos de pagode, ao som do Zeca, isso ficou gravado em mim.
Estas
imagens ficarão gravadas em minha lembrança e não se apagarão, por mais
que o tempo passe.
No
final da festa, ao se despedir, o abracei com muito amor, abraço de quem
sabia que aquele finalmente seria o seu último Natal.
Aquela
despedida não significava um até breve, e ele sabia disso, pois me abraçou
de uma forma diferente e sua figura,ficou em minha mente descendo aquelas
escadas em direção à porta da rua , indo embora, talvez para sempre.
De
repente veio em minha mente aquela música...
Adeus, Adeus, Adeus, cinco letras
que choram, num soluço de dor.
Adeus,
adeus, adeus, é como o fim de uma estrada, cortando uma encruzilhada, ponto
final de uma vida de amor...
Quem
parte tem os olhos rasos d'agua,ao sentir a grande mágoa,por se despedir de
alguém, quem fica também fica
chorando, com o coração penando, querendo partir também.
E
outra que diz:
Ah!
Se eu pudesse te abraçar agora, poder parar o tempo nessa hora, pra nunca ter
de ver você partir....
E
assim ele se foi...
O
Paulinho faleceu no dia 21 de fevereiro de 2005,partiu, Deus o veio buscar,
quase dois meses depois daquela data, daquele inesquecível Natal.
O
nosso coração está apertadinho, apertadinho!!!
Adeus
meu filho, fica o sentimento de que a “qualquer dia, qualquer hora, a gente se
encontra em qualquer lugar, seja onde for”.
Mas
hoje eu só queria saber como vai você, eu queria saber da sua vida.
Com
muita saudade de você filho querido
seus
pais Herculano e Dayse
(autor
Herculano Torres)



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